Má poesia de um grande homem

Um dos brasileiros que mais admiro é Joaquim Nabuco, líder do movimento abolicionista no país. Falarei sobre Nabuco e o Abolicionismo em outro momento. Neste, importa registrar que Nabuco foi um homem das letras e de grande cultura. E, como tal, arriscou-se na literatura e na poesia. Mas não basta vontade para conseguir escrever uma obra literária de qualidade. No relato abaixo, retirado de sua autobiografia, Nabuco narra uma experiência literária e confessa com grande sinceridade a sua má qualidade. Não se iludam. Qualquer coisa que ele tenha escrito é muito melhor do que o que escreveria 95% dos universitários atuais. E ainda assim ele aponta o engano do que produziu.

Um trecho como esse é um alerta aos jovens que desejam ser escritores e se consideram satisfeitos por conseguirem juntar duas ou três frases e receberem algum elogio complacente de colegas que ou não querem ferir seus sentimentos ou que nem se consideram capazes de julgar o texto. Antes, diante de um jovem aspirante a escritor. era comum as pessoas lerem e elogiarem o trabalho apenas por polidez. Hoje, o passo de ler os escritos foi abolido. Chovem elogios de colegas que nem se dignaram a ler o texto.

“O momento em que me apareceu essa febre do verso francês – era em verso, ainda por cima, que eu me sentia forçado a compor –, foi caprichosamente mal escolhido, porquanto coincidiu com a minha primeira viagem à Europa. Não há dúvida também que foi um resultado dela. Da impressão d’arte, da impressão histórica, da impressão literária do Velho Mundo, jorrava em mim a fonte desconhecida das Musas, que em outros têm jorrado do amor e da mocidade. Eu trazia versos de tudo o que vira, como outros viajantes trazem pedras ou folhas de hera do Coliseu, do Fórum, de Posilipo, de Sorrento, de Pompéia, do lago de Genebra, de Versalhes. Esses versos, reuni-os em um volume – Amour et Dieu. Deus no título era tudo o que restava de um longo poema da Eternidade que eu tinha pensado em Ouchy, uma espécie de réplica teísta ao De Rerum Natura. Quando comecei a escrever esses versos, eu ignorava regras fundamentais da prosódia francesa, como a da alternação das rimas; em pouco tempo tinha-me familiarizado com os segredos dos hiatos e hemistíquios. Os meus versos de Amour et Dieu pareceram-me – a ilusão do autor é um dos mais finos estratagemas da Criação – não direi iguais, mas semelhantes aos melhores da decadência em que a França já tinha entrado. Esses versos valiam muito pouco. Não que fossem todos eles maus, mas, porque o que teria realmente valor neles, se fosse um novo caminho aberto por mim à imaginação, era de fato uma estrada já muito percorrida por ela, uma espécie de via sacra das procissões antigas, na qual muito maiores espíritos tinham levantado por toda a parte colunas votivas. Isso por um lado, e por outro, porque o que neles podia soar agradavelmente era declamação poética, e não poesia; pertenceria à retórica, ou à eloqüência, e não à arte, que em tudo é criação.”

(Joaquim Nabuco, Minha formação. cap. 7)

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